Sociedade
Ponto Verde
oferece milhões em benesses aos hipermercados
A Sociedade Ponto Verde (SPV) foi criada para viabilizar a reciclagem das embalagens domésticas, mas nesta nobre tarefa acaba por estar a conceder benesses imorais aos hipermercados. Com efeito, com o alargamento da sua actividade para a gestão das embalagens industriais e da distribuição, têm surgido diversas situações graves ao nível do mercado da reciclagem.
De entre as situações mais graves na actuação da SPV, destacamos:
-
A recusa em receber todas as embalagens que são recolhidas;
-
O financiamento indevido – que apenas para o plástico atinge
os 1,35 milhões de euros em 2001 - às grandes superfícies (hipermercados) em
prejuízo das autarquias
-
O incumprimento de metas de reciclagem.
A Quercus, face à gravidade das situações, vai apresentar uma queixa ao Ministério do Ambiente, por considerar que a SPV não está a cumprir as obrigações exigidas no seu Caderno de Encargos e a que voluntariamente assumiu vir a cumprir.
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- SPV falha compromisso de reciclar embalagens por falta de verbas
O Caderno de Encargos entregue pela SPV ao Instituto de
Resíduos aquando do seu licenciamento estipula que:
«A SPV deverá estar em condições de poder assumir a
responsabilidade dos operadores económicos (...) sem discriminar algum tipo de embalagem, algum tipo de resíduo de
embalagem ou algum material de embalagem (...)»
«O âmbito do sistema não deverá ser condicionado
pela forma de representação dos vários sectores na Sociedade Ponto Verde»
Ora o que a realidade indica é que não só a SPV tem estipulado um determinado limite para a quantidade de
resíduos que está disposta a aceitar (estabelecimento de valores máximos), como
existem dois pesos e duas medidas no que concerne à aceitação de resíduos
idênticos, mas provenientes de entidades diferentes.
A Quercus sabe, através de diversos operadores privados de
gestão de resíduos, que a Sociedade
Ponto Verde não está a receber grande parte do material de embalagem estes
recolhido.
Isto acontece no momento em que o desempenho da SPV em relação àquele que é o seu objectivo
prioritário - promover a reciclagem em Portugal - é francamente deficitário quando comparado com as previsões apontadas
no caderno de encargos para o ano de 2001. De facto, as previsões
apontavam para a retoma de 400 mil toneladas de resíduos de embalagens em
2001, sendo que os resultados obtidos pouco ultrapassam os 25% (110 mil toneladas). De referir que esta
meta era só para resíduos urbanos e que neste momento a SPV já está licenciada
para resíduos industriais.
Neste contexto, não se percebe porque razão a SPV estabelece
limites aos operadores privados em relação à retoma dos resíduos de embalagens
por estes recolhidos. É ainda mais estranho que estas limitações variem
consoante a entidade envolvida, isto é, temos
recebido informações de operadores privados sobre o facto de existirem
discriminações em termos do tratamento que é dado aos resíduos de embalagens
provenientes de entidades diferentes mas a operar no mesmo sector. Mais concretamente,
os resíduos de embalagens provenientes de algumas entidades estariam a ser
enquadrados no fluxo dos resíduos urbanos e por isso aceites, e os resíduos
produzidos por outras entidades (também a operar no mesmo ramo) estariam a ser
enquadrados no fluxo dos resíduos industriais e não seriam aceites. Os casos
que nos foram reportados dizem respeito a diferentes formas de tratamento em
relação aos resíduos de embalagens provenientes de grandes superfícies
comerciais (hipermercados, centros comerciais). A esta discriminação parece não ser alheia a algo desequilibrada
distribuição de poderes no interior da própria estrutura da SPV. Tal facto,
a ser comprovado, representa uma clara
violação dos compromissos assumidos por esta entidade aquando do seu processo
de licenciamento, bem patente face à transcrição do Caderno de Encargos
apresentada acima.
2
- SPV favorece hipermercados e cria o conceito do poluidor-recebedor
A incapacidade financeira da SPV para receber resíduos de
embalagem já se previa. Com efeito, desde que a SPV passou a pagar de igual
forma as embalagens industriais e da distribuição e as embalagens dos resíduos
urbanos, iniciou-se um desvio de fundos
originalmente destinados às autarquias, indo estes directamente para a
distribuição e indústria. Esta situação
é insustentável e injusta para as autarquias uma vez que é muito mais caro
recolher selectivamente e triar as embalagens urbanas do que as da distribuição
e da indústria.
Neste momento a SPV criou um novo conceito, o "POLUIDOR-RECEBEDOR", através do qual a distribuição em particular, devido ao seu peso na SPV, conseguiu
criar um sistema em que recebe pelos
resíduos de embalagem que produz, sensivelmente um valor superior ao triplo
dos custos da sua triagem e envio para reciclagem.
A título de exemplo, no caso dos plásticos, a SPV paga aos
hipermercados Euros 0,66/Kg (132$00/Kg) quando o valor justo deveria rondar, no
máximo, os Euros 0,20 (40$00). Em cada tonelada de resíduos de plásticos dos
hipermercados, a SPV favorece estas empresas em 90 contos. Como em 2001, foram recicladas cerca de 3
mil toneladas de embalagens de plástico pelos hipermercados, isto significou um
rombo nas finanças da SPV de 1,35 milhões de euros (270 mil contos).
A face mais dramática desta situação, para além do
descrédito do sistema e da confusão junto dos operadores privados, é o facto de
a SPV prever para 2002 um corte no apoio à sensibilização da população.
Neste contexto, a
Quercus exige uma intervenção enérgica do Instituto dos Resíduos para que reponha a legalidade e
moralidade num sistema que, apesar das virtudes nos objectivos que lhe esteve
na génese, está a apresentar distorções que urge eliminar.
Lisboa, 7 de Junho de 2002
Quercus – Associação Nacional de Conservação da natureza
Contactos: Rui Berkemeier 934256581, Pedro Carteiro 934285343,
217788473, 965491840